A diplomacia de bombardeio tarifário de Donald Trump finalmente conseguiu o que décadas de debates teóricos não alcançaram: a certidão de óbito da Otan assinada pela realidade. Neste domingo, Jean-Luc Mélenchon, a voz mais potente da esquerda francesa, não usou eufemismos para descrever o estado clínico da aliança transatlântica: “A Otan está morta”.
A declaração, disparada como um obus nas redes sociais, é a resposta ríspida à audácia imperialista de Trump, que agora condiciona a paz comercial do continente à entrega da Groenlândia. Para Mélenchon, o tempo da vassalagem acabou; ou a Europa se organiza como um bloco soberano de recusa, ou será devorada pelo apetite imobiliário de um presidente que confunde geopolítica com monopólio.
O ultimato de Trump, que prevê um garrote econômico de 10% a partir de fevereiro — subindo para 25% em junho — contra os “europeus recalcitrantes”, é o maior teste de dignidade para o eixo Paris-Berlim desde a Segunda Guerra. Ao tentar comprar a Groenlândia à força para instalar seu bilionário “Domo Dourado” de US$ 175 bilhões, Washington deixa claro que os aliados são, na verdade, apenas geografia disponível para suas armas e recursos.
Mélenchon percebe o que muitos liberais ainda tentam ignorar: a Otan não é mais um guarda-chuva de proteção, mas um torniquete que asfixia a autonomia europeia em favor de uma corrida armamentista espacial e nuclear centrada no controle de urânio e terras raras do Ártico.
O Domo Dourado e o preço da liberdade dinamarquesa
A obsessão de Trump pela ilha de 56 mil habitantes não é movida por um espírito de fraternidade ártica, mas pela ganância mineral e militar. O “Domo Dourado”, projeto faraônico que o magnata quer entregar até 2029, exige o solo groenlandês como base de lançamento e monitoramento. Enquanto comunidades indígenas resistem à exploração de petróleo e gás em defesa do ecossistema, Trump oferece o “acordo” de um agiota: a venda total da ilha ou a destruição das economias de Dinamarca, Noruega, França e Alemanha. É o “fazer o que deve ser feito” de um império que, nas palavras de Mélenchon, agride para anexar.
A anatomia da ruptura transatlântica
- O ultimato: Tarifas de 10% a 25% como punição pela soberania alheia.
- O ativo: Urânio, ouro e o controle estratégico entre EUA e Rússia.
- A tese de Mélenchon: A França deve liderar o “front do leste” europeu contra a vassalagem.
- A morte da Otan: A aliança tornou-se um instrumento de extorsão comercial e expansão colonial.
A resistência de Mélenchon ecoa a insatisfação de um continente que não quer ser o campo de batalha de uma nova Guerra Fria alimentada por delírios de grandeza imobiliária. Se a Groenlândia integra o Reino da Dinamarca desde 1953, a tentativa de compra por “razões estratégicas” é um regresso ao século XIX, onde territórios eram permutados como gado. O líder francês convoca uma reavaliação das certezas do passado: a ideia de que os EUA são os “garantes da democracia” derrete mais rápido que as geleiras sob o sol das sanções de Trump.
| País Alvo de Trump | Posição Estratégica | Resposta de Mélenchon / Esquerda |
| Dinamarca | Proprietária da Groenlândia. | Defesa da soberania constitucional imediata. |
| França | Potência nuclear e líder diplomático. | Formação de uma Frente Europeia de Recusa. |
| Noruega/Suécia | Vizinhos árticos sob ameaça direta. | Militarização soberana fora do eixo da Otan. |
| Alemanha | Motor econômico alvo de tarifas. | Ruptura com a dependência de segurança dos EUA. |
O cenário de 2026 desenha um mundo onde o “nós podemos tudo” de Trump encontra a resistência de quem não aceita ser sócio minoritário de um desastre anunciado. A morte da Otan, decretada por Mélenchon, é o reconhecimento de que não há aliança possível com quem aponta uma arma tarifária para o peito do aliado enquanto tenta roubar o chão sob seus pés. Se a França assumir a liderança desse front de recusa, o império de Trump poderá descobrir que o gelo da Groenlândia é muito mais duro de quebrar do que os contratos que ele está acostumado a rasgar.





