Na política, símbolos falam — e às vezes gritam mais do que programas. A tesoura empunhada por Flávio Bolsonaro como emblema de campanha pretendia comunicar austeridade, corte de gastos e ruptura com privilégios. O efeito, porém, foi imediato e inverso: virou piada pronta nas mãos do PT.
O presidente nacional do partido, Edinho Silva, não perdeu tempo. Disse que o gesto não impressiona e sugeriu que, antes de qualquer corte no Estado, o senador deveria “começar usando a tesoura com a própria família”. A crítica foi direta, personalizada e carregada de intenção política: desmontar a narrativa antes que ela crie raízes.
Há algo de Machado de Assis nesse episódio. Como em Memórias Póstumas de Brás Cubas, o discurso moralizante perde força quando o narrador carrega um passado que desmente suas próprias palavras. A ironia não é acessório — é método de leitura da realidade.
“A austeridade vira caricatura quando quem promete cortar nunca largou a tesouraria.”
A tesoura, a motosserra e o problema da comparação
A inspiração em Milei
A escolha do símbolo remete de forma transparente à motosserra de Javier Milei, presidente da Argentina, que fez do ataque ao gasto público o eixo de sua campanha. No marketing, a analogia é clara: menos Estado, mais choque simbólico.
Por que o PT diz que não cola
Nos bastidores petistas, a avaliação é que a comparação não se sustenta. Milei se apresentou como outsider, alguém que chegou à política prometendo romper com o sistema. Flávio Bolsonaro, ao contrário, é parte de um clã que acumula décadas de mandatos, cargos e protagonismo no poder.
Esse contraste, segundo dirigentes do PT, torna frágil qualquer tentativa de vender ruptura. Não há novidade em quem já governou — e muito menos em quem governou gastando.
O histórico que volta ao debate
Edinho Silva reforçou o ataque ao lembrar a gestão de Jair Bolsonaro. Citou gastos elevados, uso de cartões corporativos e episódios que contradizem frontalmente o discurso de contenção de despesas agora adotado pelo filho.
Ao mencionar Eduardo Bolsonaro, o dirigente petista tocou em outro ponto sensível: a remuneração e os privilégios associados ao exercício do mandato, mesmo em períodos de baixa atuação pública. A crítica não é apenas moral; é estratégica, ao colar a imagem da tesoura a uma memória recente de excessos.
No fim, o episódio revela um traço recorrente da política brasileira: símbolos importados nem sempre sobrevivem ao teste da biografia. Quando o marketing tenta apagar o passado, o adversário faz questão de iluminá-lo.
E, neste caso, a tesoura acabou cortando o próprio discurso que pretendia sustentar.





