OS FATOS:
- Em 5 de janeiro de 2026, o Departamento de Saúde dos EUA (HHS) oficializou um novo calendário de vacinação infantil, reduzindo vacinas de 17 para 11 como recomendações universais.
- Vacinas contra hepatite A, hepatite B, rotavírus, influenza e meningococo foram rebaixadas para o regime de “decisão clínica compartilhada”, retirando sua obrigatoriedade de rotina.
- A decisão foi conduzida por Robert F. Kennedy Jr., secretário do HHS e histórico militante antivacina, apoiado por um ACIP politicamente capturado.
A Destruição Do Pacto Sanitário
Desde 1995, o calendário vacinal norte-americano funcionava como um pacto civilizatório: ciência, Estado e famílias unidos para proteger a infância contra os microrganismos que, ao longo do século XX, mutilaram, cegaram e mataram milhões. O que Kennedy Jr. realizou em janeiro de 2026 não foi uma “revisão técnica”, mas uma demolição ideológica desse pacto.
A comparação utilizada para justificar o retrocesso — Estados Unidos versus Dinamarca — é uma falácia estrutural. A Dinamarca opera com sistema de saúde universal, registro nacional de pacientes e acompanhamento integral. Os EUA, ao contrário, são um arquipélago médico fragmentado, com 27 milhões de pessoas sem seguro e milhões que trocam de médico e estado todos os anos. Transplantar um modelo escandinavo para esse deserto institucional é engenharia social irresponsável.
A Lógica Perversa Da “Escolha”
Ao deslocar vacinas essenciais para a categoria de “decisão clínica compartilhada”, o governo cria uma ilusão liberal de autonomia. Na prática, trata-se de uma terceirização da culpa. Em vez de protocolos automáticos nos prontuários e enfermeiros autorizados a vacinar, cada dose passa a exigir consulta médica individual — um gargalo que reduz a cobertura, sobretudo entre pobres, migrantes e populações rurais.
| Regime Vacinal | Antes de 2026 | Depois de 5 jan. 2026 |
|---|---|---|
| Vacinação de rotina | Automática, baseada em calendário nacional | Substituída por decisão caso a caso |
| Acesso em clínicas | Enfermeiros podem aplicar sob ordens permanentes | Exige consulta médica individual |
| Impacto esperado | Alta cobertura populacional | Queda de adesão e surtos localizados |
Hepatite B: O Caso Que Condena O Experimento
A vacina contra hepatite B ao nascer era a joia da coroa da política preventiva americana. Antes de sua adoção universal, 18 mil crianças por ano eram infectadas. Bebês contaminados têm 90% de chance de desenvolver infecção crônica, e 25% morrem de cirrose ou câncer hepático ao longo da vida. Com a vacinação universal, as infecções infantis caíram 99%.
| Indicador | Antes da vacina universal | Depois |
|---|---|---|
| Infecções infantis por hepatite B | ~18.000/ano | Redução de 99% |
| Mortalidade ao longo da vida | 1 em 4 infectados | Residual |
| Estratégia | Triagem seletiva falha | Rede de segurança universal |
Kennedy Jr. desmontou essa rede sem nenhuma nova evidência científica que justificasse o risco.
O Antígeno Como Metáfora
Os militantes antivacina evocam a imagem de um sistema imunológico “sobrecarregado”. A ciência mostra o oposto. Nos anos 1980, uma única vacina contra coqueluche continha 3.000 antígenos. Todo o calendário atual contém menos de 160. A tecnologia refinou a imunização; a política, agora, a brutaliza.
O Estado Sequestrado
O novo ACIP foi povoado por nomeações ideológicas, não por consenso científico. O diretor interino do CDC que assinou o memorando é um investidor sem formação médica. A avaliação que sustenta a mudança foi escrita por críticos históricos das vacinas dentro da FDA e do próprio HHS. Trata-se de um golpe burocrático contra a medicina baseada em evidências.
A decisão de Kennedy Jr. coloca as crianças americanas em risco real de surtos epidêmicos?
Sim. Ao fragmentar o regime vacinal, o HHS desmonta os mecanismos automáticos que garantiam alta cobertura populacional, criando bolsões de não imunizados que funcionam como incubadoras epidemiológicas, sobretudo em um sistema de saúde já estruturalmente desigual.
Com informações do The Conversation





