A história, quando escrita por mãos íntegras, possui uma ironia poética que nenhum roteirista de ficção ousaria conceber. Marcus Lacerda, o infectologista da Fiocruz Amazônia que virou alvo de uma “fatwa” digital disparada pelo baixo clero do bolsonarismo, acaba de ser alçado ao topo da pirâmide científica global.
Nomeado diretor do Programa Especial para Pesquisa e Treinamento em Doenças Tropicais (TDR) da Organização Mundial da Saúde (OMS), Lacerda deixa o isolamento imposto pelas ameaças de morte para ditar o ritmo das pesquisas que salvam vidas em países de baixa renda. É o triunfo da evidência sobre a ideologia, da bancada do laboratório sobre o palanque da ignorância.
O “crime” de Lacerda, para os padrões da era das trevas que assolou o Brasil, foi ser honesto. Ao coordenar o estudo CloroCovid-19, ele teve a audácia de provar que a cloroquina — o amuleto da sorte de Jair Bolsonaro e seus áulicos — não apenas era inútil contra o vírus, mas perigosa em altas doses.
Por cumprir seu dever hipocrático e acadêmico, o pesquisador foi brindado com ameaças a seus filhos, perseguição judicial e a revogação de honrarias pelo governo federal. Agora, enquanto o “Capitão” desfruta do silêncio de sua cela na Papudinha, o cientista que ele tentou destruir assume um orçamento milionário e a missão de erradicar doenças que a elite financeira prefere ignorar.
A nomeação de Lacerda é a prova de que a reputação científica é imune ao veneno das redes sociais?
Será que os inquisidores digitais de 2020, liderados pela prole presidencial, imaginavam que o “doutor de Manaus” se tornaria o braço direito de Tedros Adhanom na luta contra a malária e a dengue?

| Crédito: Reprodução
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A ida de Lacerda para a OMS não é apenas uma vitória pessoal; é a reabilitação diplomática da ciência brasileira. Ao escolher um herdeiro de Carlos Morel para o TDR, a comunidade internacional envia um recado claro: o Brasil dos pesquisadores escoltados ficou para trás.
Hoje, Marcus Lacerda não precisa mais de colete à prova de balas para circular em Genebra; sua armadura é o rigor metodológico que a ignorância jamais conseguiu perfurar.
A Rota do Reconhecimento: Da Perseguição ao Topo da OMS
| Etapa da Trajetória | O Ataque do Obscurantismo | A Resposta da Ciência | O Desfecho em 2026 |
| Estudo CloroCovid-19 | Eduardo Bolsonaro alegou “assassinato” de pacientes. | Publicação no prestigiado jornal JAMA. | Referência mundial em ética e rigor. |
| Ameaças de Morte | Militância digital exigia “fim da linha” para o médico. | Escolta armada e proteção da Fiocruz. | Lacerda assume a direção do TDR/OMS. |
| Mérito Científico | Ordem Nacional revogada por Jair Bolsonaro. | Medalha restituída com pedido de desculpas. | O reconhecimento vem de Genebra. |
| Liderança Técnica | Chamado de “esquerdista” por defender evidências. | Presidência da Sociedade Brasileira de Med. Tropical. | Diretor Global da OMS. |
A nomeação de Marcus Lacerda é o maior atestado de óbito do movimento antivacina e anticiência que quase sequestrou o futuro do Brasil. Enquanto os promotores do “tratamento precoce” respondem a processos e amargam rejeições nas pesquisas de opinião, o infectologista taguatinguense prepara as malas para levar a inteligência brasileira aos quatro cantos do mundo. Lacerda provou que, na ciência, a verdade pode ser demorada e perigosa, mas é a única que sobrevive ao teste do tempo — e ao julgamento da história.





