A harmonia do coral evangélico foi substituída por um duelo de vaidades e denúncias que faria qualquer fariseu corar. Damares Alves, a senadora que já viu Jesus na goiabeira, agora parece enxergar algo bem mais terreno nos livros contábeis de seus irmãos de fé: a “Farra do INSS”.
Em resposta ao pastor Silas Malafaia — que a chamou de “linguaruda” e “leviana” por sugerir que grandes denominações estariam envolvidas em fraudes contra aposentados —, Damares foi curta, grossa e enigmática.
“O Malafaia precisa orar um pouco. Eu não submeto minhas ações parlamentares a ele”, disparou. É a versão gospel do “quem te viu, quem te vê”: a ex-pastora, agora investida de poder inquisitório, avisa que o púlpito não é salvo-conduto para o dízimo extraído do suor de pensionistas.
O embate não é apenas retórico; é documental. Pressionada pelo “berro” de Malafaia, Damares abriu a caixa de Pandora e soltou os nomes que o pastor exigia.
Na mira da CPMI e com pedidos de quebra de sigilo, estão instituições como a Adoração Church, a Assembleia de Deus Ministério do Renovo e o Ministério Deus é Fiel Church.
Mais pimenta: nomes como André Valadão (o líder global da Lagoinha) e Fabiano Zettel (o empresário-pastor que transita pelo Banco Master) foram convidados a prestar contas.

Ao expor a Assembleia de Deus do Amazonas, ligada ao clã de Silas Câmara, Damares prova que o corporativismo religioso está perdendo a validade diante do risco de um escândalo previdenciário que pode drenar a última gota de credibilidade da bancada evangélica.
Pode a fé sobreviver quando o altar se torna balcão de negócios consignados?
Será que Malafaia teme que a investigação chegue perto demais de suas próprias alianças ou sua fúria é apenas o medo de ver o “segmento” ser maculado por investigações oficiais?
Ao exigir que Damares dê nomes, o pastor recebeu uma lista que inclui desde a Lagoinha até igrejas de menor porte, mas de apetite voraz pelos descontos irregulares.
A CPMI do INSS está chegando onde nenhum fiel imaginava: na conta bancária de líderes que pregam a prosperidade enquanto, supostamente, facilitam a penúria de idosos.
Se Damares está sendo “linguaruda”, ela está usando sua língua para ler relatórios da Receita e do RIF que Malafaia, em sua oração barulhenta, parece preferir ignorar.
O Mapa da “Inquisição” Gospel: Quem está na lista de Damares
| Entidade / Líder | Medida Solicitada | Vínculo / Contexto | A Visão do Diário |
| André Valadão | Convocação e quebra de sigilo. | Lagoinha Global / Caso Master. | O “popstar” da fé terá que trocar o palco pelo plenário. |
| Fabiano Zettel | Convite para prestar depoimento. | Ex-Lagoinha / Cunhado de dono de banco. | O elo entre o altar e o sistema financeiro sob suspeita. |
| Adoração Church | Transferência de sigilo financeiro. | Investigada por descontos indevidos. | Onde a adoração encontra a transação irregular. |
| Assembleia de Deus (AM) | Análise de documentos pela CPMI. | Ligada ao deputado Silas Câmara. | O nepotismo religioso sob a lupa da lei. |
A guerra entre Damares e Malafaia é o sinal de que o barco bolsonarista está sendo abandonado pelos ratos mais espertos. Damares, percebendo que o cerco à “Farra do INSS” é inevitável, escolheu o lado da investigação para não ser tragada pelo escândalo.
Malafaia, por outro lado, tenta segurar a porteira com gritos, mas os requerimentos de quebra de sigilo não se assustam com vídeos de rede social.
Se Malafaia precisa “orar”, o Brasil precisa que a CPMI trabalhe — e que o dinheiro dos aposentados deixe de ser a oferta voluntária involuntária de esquemas de lavagem.





