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Infraestrutura cega

Asfalto sem consulta na Amazônia

Por Asfalto sem consulta na Amazônia | Diário Carioca JR Vital Analista Geopolítico

A Amazônia voltou a ser tratada como planilha. Obras de abertura e pavimentação de estradas financiadas por emendas parlamentares avançam sobre territórios indígenas sem a consulta prévia exigida pelo direito internacional. O resultado previsível é o choque com o Judiciário, que começa a interromper projetos vendidos como desenvolvimento e executados como atropelo.

O fato bruto é simples e incômodo. Em Estados como Amazonas e Acre, projetos viários — entre eles a BR-319, eixo que liga Manaus a Porto Velho — foram judicializados por ignorarem a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho. O tratado, incorporado ao ordenamento brasileiro, exige consulta livre, prévia e informada às comunidades indígenas potencialmente afetadas.

A tentativa de driblar a lei é ainda mais didática. Em vez da consulta específica, gestores e parlamentares apostaram em abaixo-assinados genéricos e audiências públicas urbanas. A Justiça respondeu com a mesma secura: participação simbólica não equivale a consulta efetiva. O rito existe para ouvir quem será impactado, não para carimbar decisões já tomadas.

Os personagens menos visíveis ajudam a entender o conflito. No Acre, lideranças indígenas de etnias como Huni Kuin e Ashaninka, com organizações próprias e histórico de diálogo institucional, passaram a ser tratadas como obstáculo administrativo. No Amazonas, técnicos ambientais de carreira, servidores concursados com décadas de atuação em licenciamento, relataram pressão política para acelerar pareceres. São profissionais que respondem a conselhos regionais e têm responsabilidade técnica pessoal sobre cada assinatura.

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A engrenagem financeira também merece luz. Emendas parlamentares individuais e de bancada, instrumento legítimo do orçamento, foram convertidas em atalhos decisórios. O dinheiro chega rápido; o diálogo, não. Quando a pressa encontra a floresta, o resultado costuma ser irreversível.

Aqui cabe a primeira pausa visual, com imagens aéreas da floresta cortada por linhas retas. O contraste entre o verde contínuo e o traçado do asfalto dispensa adjetivos.

No meio desse tabuleiro, o discurso político repete velhas fórmulas. Desenvolvimento, integração nacional, combate ao isolamento. Palavras que já foram usadas para justificar hidrelétricas mal planejadas, garimpos tolerados e estradas que se tornaram vetores de desmatamento e conflito fundiário.

Quando o papel vale menos que o território

A Convenção 169 não é detalhe burocrático. Ela nasceu para corrigir séculos de decisões tomadas sem os povos originários. Consulta não é plebiscito nem audiência protocolar. É processo, tempo, tradução cultural e possibilidade real de dizer não. Sem isso, qualquer obra nasce viciada.

Entre um parágrafo e outro, emerge um inventário incômodo de oposições que se repetem ao longo da história amazônica:
– Orçamento liberado versus direito ignorado.
– Audiência urbana versus aldeia invisível.
– Pressa política versus tempo do território.

Especialistas em direito socioambiental têm sido uníssonos. A ausência de regulamentação detalhada sobre como realizar a consulta não autoriza sua supressão. Pelo contrário, impõe cautela redobrada ao poder público. Cada decisão judicial que suspende uma obra não cria insegurança jurídica; corrige uma insegurança pré-existente.

O paralelo histórico é inevitável. Durante o ciclo autoritário que teve em Jair Bolsonaro, o golpista, um de seus mais ruidosos entusiastas, a Amazônia foi tratada como fronteira a ser conquistada contra inimigos imaginários. A retórica mudou de tom nos últimos anos, mas certos métodos persistem, agora embalados por emendas e discursos técnicos.

Desenvolvimento sem gente é só obra

A BR-319 tornou-se símbolo porque condensa todos os dilemas. Planejada nos anos 1970, abandonada, retomada sem resolver passivos antigos, ela atravessa áreas sensíveis, terras indígenas e unidades de conservação. Não é uma estrada; é um teste de maturidade institucional.

No Acre, projetos menores repetem a lógica. Vicinais abertas para escoar produção acabam ampliando grilagem e conflitos. O custo social raramente entra na conta das emendas, mas sempre aparece nos processos judiciais.

Outra sequência de contrastes se impõe ao leitor atento:
– Licença acelerada versus conflito prolongado.
– Promessa de emprego versus perda de território.
– Discurso técnico versus impacto real.

Na segunda metade deste texto, vale organizar os fatos de forma direta, sem adjetivos:

Projeto viárioFonte de recursosSituação judicialPrincipal falha apontada
BR-319Emendas parlamentaresAções em cursoAusência de consulta indígena
Vicinais no AcreEmendas estaduais e federaisLiminares parciaisConsulta substituída por audiências
Estradas no sul do AmazonasEmendas de bancadaInvestigação inicialParticipação indígena insuficiente

Onde a consulta foi tratada como formalidade, o Judiciário interveio. Onde houve diálogo real, os conflitos foram menores ou inexistentes.

O debate não é contra estradas, mas contra a ideia de que o fim justifica o meio. Infraestrutura que ignora gente produz litígio, atraso e descrédito. A Amazônia já pagou caro por projetos impostos de cima para baixo.

Encerrar sem imagens seria omissão. Fotos de assembleias indígenas, com tradução simultânea e atas bilíngues, mostram que consulta é possível quando há vontade política.

Nomes citados nesta notícia: Organização Internacional do Trabalho, BR-319, Justiça Federal, Amazonas, Acre, Jair Bolsonaro

Asfalto sem consulta na Amazônia | Diário Carioca

JR Vital

JR Vital é jornalista e editor do Diário Carioca. Analista Político, Formado no Rio de Janeiro, pela faculdade de jornalismo Pinheiro Guimarães, atua desde 2007, tendo passado por grandes redações, como Visto Livre Magazine, Folha do Centro, Universo Musical, Alô Rio e outros.

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