A audácia criminosa no Brasil de 2026 ganhou um novo rosto, e ele usa batom e distintivo. A prisão da delegada Layla Lima Ayub, ocorrida nesta sexta-feira (16), revela um roteiro que faria inveja às infiltrações cinematográficas: recém-empossada, Layla não se deu ao trabalho de esconder o coração — ou o patrão. Em sua posse na Academia de Polícia, em dezembro de 2025, ela desfilou de braços dados com Jardel Neto Pereira da Cruz, o “Dedel”, uma das vozes de comando do PCC na região Norte. O promotor Carlos Gaya não economizou no adjetivo: “audácia”. Levar um criminoso em liberdade condicional para o ninho da Polícia Civil não foi apenas um erro de julgamento amoroso; foi uma demonstração de força e desprezo pelas instituições que ela jurou servir.
A investigação da Operação Serpens — um esforço conjunto entre o MP-SP, Gaeco e a Corregedoria — aponta que a cooptação de Layla começou antes do concurso, nos tempos em que ela atuava como advogada. A suspeita é que a “Doutora” tenha sido investida pela facção para ser os olhos e ouvidos do crime dentro da máquina estatal. Para completar o combo da contravenção, o casal planejava lavar o capital da organização através da compra de uma padaria em Itaquera, na Zona Leste paulistana. Entre o café e o pãozinho, o PCC pretendia limpar o sangue do tráfico sob o balcão de um estabelecimento de bairro, provando que a lavagem de dinheiro busca sempre a banalidade do cotidiano para florescer.

O Estado brasileiro está sendo “concursado” pelo crime organizado ou este é apenas um caso isolado de cupidez individual?
Será que os filtros da Academia de Polícia são tão porosos que uma advogada de traficantes — que chegou a atuar em audiência de custódia para o bando já ocupando cargo público — consegue passar incólume? O caso de Layla Ayub é o sintoma de uma doença mais profunda: a infiltração por inteligência. O crime organizado não quer apenas trocar tiros nas frestas das favelas; ele quer assinar os boletins de ocorrência. Ao ser presa, Layla arrasta consigo a credibilidade de um sistema de seleção que permitiu a uma liderança do PCC sorrir para as fotos oficiais no coração da segurança pública paulista.
Anatomia da Infiltração: A Ficha de Layla Ayub
| Ponto de Ruptura | Ação Investigada | A Prova do Crime | O Olhar do Diário |
| Vida Dupla | Advogada e Delegada simultaneamente. | Atuação em audiência para traficantes após a posse. | A ética jogada no triturador de papel da delegacia. |
| Relação Perigosa | Namoro com “Dedel” (Líder do PCC). | Fotos oficiais na cerimônia da Academia de Polícia. | O amor é cego, mas a Justiça está começando a enxergar. |
| Lavagem de Capitais | Compra de padaria em Itaquera. | Contratos informais e movimentação atípica. | O lucro do tráfico tentando virar sonho de padaria. |
| Operação Serpens | Investigação SP e Pará. | Prisão preventiva e busca e apreensão. | A serpente perdeu o bote; agora é hora de colher o veneno. |
Layla Ayub é o exemplo da “uberização” do crime no serviço público. Ela não é apenas uma delegada corrupta; ela é, possivelmente, uma peça de engenharia logística do PCC. O fato de ela ter levado o namorado em condicional para a posse mostra que o crime organizado perdeu o medo do Estado — ou pior, sente-se dono dele. Enquanto a Polícia Civil tenta identificar todos os clientes da “Doutora”, o Brasil se pergunta quantas outras “Laylas” estão neste momento redigindo inquéritos sob encomenda nos gabinetes do país.





