Quando bombas caem, as palavras costumam correr mais rápido que os fatos. Em poucas horas, a ofensiva militar dos Estados Unidos contra a Venezuela transformou-se em um teste global de alinhamentos, princípios e cinismos. Enquanto Caracas ainda contava os ecos das explosões, governos ao redor do mundo já escolhiam lados — alguns por convicção, outros por conveniência.
O continente em alerta
Na América do Sul, a reação mais imediata veio da Colômbia. O presidente Gustavo Petro falou em “profunda preocupação”, rejeitou qualquer ação militar unilateral e evocou um vocabulário raro nos últimos anos: autodeterminação dos povos. Ao mesmo tempo, reforçou a fronteira, antecipando o que a história regional ensina desde os anos 1970 — guerras políticas costumam produzir refugiados reais.
Já em Buenos Aires, Javier Milei escolheu outro registro. Comemorou o ataque como triunfo abstrato da “liberdade”, numa frase mais próxima de slogan de rede social do que de diplomacia. A celebração explícita de uma intervenção estrangeira marca uma inflexão simbólica na tradição latino-americana de, ao menos retoricamente, defender a soberania como valor comum.
O eixo da condenação
Irã, Rússia e Cuba reagiram com dureza. Teerã falou em “violação flagrante” da soberania venezuelana e levou o caso ao Conselho de Segurança da ONU. Moscou classificou a ofensiva como “agressão armada” e pediu contenção para evitar escalada — ironia involuntária num mundo onde a palavra “diálogo” sobrevive mesmo quando os mísseis já falaram. Havana, fiel ao seu papel histórico, denunciou “terrorismo de Estado” e lembrou que a América Latina foi declarada “zona de paz” há pouco mais de uma década.
“A retórica muda, mas o mapa das intervenções continua apontando para o sul.”
A Europa entre a cautela e o protocolo
Na Europa, o tom foi mais burocrático que ideológico. Alemanha e Itália expressaram “grande preocupação”, ativaram equipes de crise e concentraram-se na proteção de seus cidadãos em território venezuelano. É a diplomacia do manual: condenar sem romper, observar sem legitimar, ganhar tempo enquanto o tabuleiro se redefine.
A Coreia do Sul seguiu lógica semelhante, priorizando planos de evacuação. Quando potências médias falam em retirar cidadãos, o subtexto é claro: ninguém acredita que o episódio terminará rápido.
Um eco do século XX
A diversidade de reações lembra menos a ordem internacional pós-Guerra Fria e mais o mundo bipolar do século passado, quando golpes, intervenções e “operações de grande escala” eram acompanhados por coros previsíveis de aplausos e repúdios. De Truman a Reagan, de Fidel a Pinochet, a América Latina foi palco recorrente dessa disputa moral seletiva. A captura anunciada de Maduro apenas atualiza o enredo com novas plataformas e velhos interesses.
O ataque ainda está longe de seu desfecho político. Mas a reação global já deixa claro: não se trata apenas da Venezuela. Trata-se de quem define as regras, quem as viola e quem aplaude quando elas são quebradas — desde que não seja em seu próprio quintal.





