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Tiranos não Passarão

EUA podem “administrar” a Venezuela? A história sugere que não

Por JR Vital Analista Geopolítico

Governar outro país sempre foi mais fácil no discurso do que na realidade. A ofensiva militar que resultou na captura de Nicolás Maduro abriu um vazio político imediato — e um debate profundo sobre até onde vai, de fato, o poder dos Estados Unidos. Ao sugerir que Washington poderia “administrar” a Venezuela até uma transição, Donald Trump reativou um fantasma antigo da política externa americana: a crença de que força militar substitui legitimidade.

Não se trata apenas de Maduro, nem da avaliação moral sobre o chavismo. O ponto central é estrutural. Estados modernos não são empresas em recuperação judicial, tampouco territórios sem história. São sistemas sociais complexos, marcados por soberania, memória coletiva e, sobretudo, consequências.

A situação remete a Tucídides, em A Guerra do Peloponeso. Atenas, no auge de seu poder, acreditou que podia impor sua vontade a qualquer cidade. O resultado foi a erosão da própria democracia ateniense. O império, ensina a história, cobra juros altos.

“Quando o poder se confunde com direito, o império começa a perder a capacidade de se governar a si mesmo.”


O labirinto jurídico da “administração” estrangeira

Precedentes que não se repetem

A Casa Branca acena com o precedente do Panamá, em 1989. Mas mesmo ali, após a captura de Manuel Noriega, os EUA não governaram o país. Um presidente local foi empossado rapidamente, ainda que sob forte influência americana. Não houve ocupação formal nem tutela direta prolongada.

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Na Venezuela, Trump sugere algo diferente: controle político enquanto pressiona a vice-presidente Delcy Rodríguez a cooperar. O problema é simples e grave — não existe, hoje, arcabouço jurídico internacional que legitime tal arranjo sem consentimento interno ou mandato da ONU.

A Carta da ONU e o direito internacional

O uso da força em território soberano é proibido, salvo em casos de autodefesa ou autorização do Conselho de Segurança. Prender um chefe de Estado para julgamento externo é classificado como aplicação da lei, não como defesa imediata. A justificativa americana, portanto, caminha em terreno instável.

O limite constitucional nos EUA

Internamente, a controvérsia é igualmente séria. A Constituição dos EUA incorpora tratados internacionais como lei suprema. Ainda assim, interpretações históricas do Executivo tentam abrir exceções. Nenhuma delas, porém, recebeu chancela definitiva da Suprema Corte.

Bombardeios realizados durante a operação foram classificados como defensivos, mas críticos questionam a ausência de autorização explícita do Congresso para o uso da força — um ponto sensível em qualquer democracia que se pretenda funcional.


Maduro, imunidade e tribunais americanos

Outro nó jurídico envolve a imunidade de chefes de Estado. O direito internacional tradicional protege líderes em exercício. Washington tenta contornar essa regra ao sustentar que Maduro não é um presidente legítimo, mas o chefe de uma organização criminosa.

O histórico é contraditório: os EUA reconheceram Maduro por anos e só romperam formalmente em 2019. A Suprema Corte tende a aceitar que o Executivo define o reconhecimento de governos estrangeiros, o que pode enfraquecer a defesa. Ainda assim, o precedente é perigoso — porque pode ser usado contra qualquer líder inconveniente no futuro.


O alerta do New York Times: memória contra arrogância

Em editorial duro, o New York Times classificou a ofensiva como ilegal à luz da Constituição americana e do direito internacional. Reconheceu os abusos do chavismo, mas lembrou que derrubar regimes pela força raramente produz estabilidade.

Afeganistão, Iraque e Líbia não são notas de rodapé — são advertências. A justificativa do combate ao narcotráfico foi considerada frágil, e a mobilização militar no Caribe, desproporcional. Para o jornal, a operação parece menos uma resposta a uma ameaça concreta e mais uma tentativa de reafirmar hegemonia no Hemisfério Ocidental.

O risco, aponta o editorial, é duplo: aprofundar a instabilidade regional e oferecer munição retórica a outros líderes autoritários mundo afora.


No centro do debate permanece a pergunta incômoda: mesmo que a captura de Maduro avance nos tribunais americanos, é politicamente sustentável, juridicamente defensável e historicamente sensato imaginar os Estados Unidos “administrando” a Venezuela sem repetir o custo humano, estratégico e moral de intervenções passadas?

A história, até agora, responde com um sonoro não.

JR Vital

JR Vital é jornalista e editor do Diário Carioca. Analista Político, Formado no Rio de Janeiro, pela faculdade de jornalismo Pinheiro Guimarães, atua desde 2007, tendo passado por grandes redações, como Visto Livre Magazine, Folha do Centro, Universo Musical, Alô Rio e outros.

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