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Fora de Controle

EUA cogitam usar força armada para anexar a Groenlândia

Declaração da Casa Branca transforma cálculo estratégico no Ártico em ameaça aberta à soberania europeia.

Por JR Vital Analista Geopolítico

Há momentos em que a retórica abandona o subtexto e vira enunciado. Foi o que ocorreu quando o governo Donald Trump admitiu, em comunicado oficial, que considera inclusive o uso das Forças Armadas para “adquirir” a Groenlândia, território autônomo sob soberania da Dinamarca.

A Casa Branca tratou a hipótese como parte normal do cardápio estratégico: segundo a nota, empregar militares “é sempre uma opção à disposição do comandante-chefe”.

O argumento apresentado é direto e inquietante. Para Washington, o controle da Groenlândia seria “vital” para a segurança nacional dos Estados Unidos e para a dissuasão de adversários no Ártico.

O território, afirmam autoridades americanas, ocupa posição-chave entre a América do Norte, a Rússia e as rotas marítimas abertas pelo degelo acelerado da região.

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O Ártico como novo faroeste

O discurso remete a um imaginário antigo, de expansão territorial legitimada pela força. No século XIX, a Compra do Alasca foi vendida como negócio visionário; no XXI, a Groenlândia reaparece como ativo geopolítico, agora sob a lógica da competição entre potências nucleares. A diferença é que, desta vez, não se fala em transação diplomática, mas em anexação como possibilidade concreta.

Desde 1951, os EUA mantêm na ilha a Base Aérea de Thule, peça central do sistema de defesa antimísseis e de vigilância no extremo norte. Soma-se a isso o interesse crescente em minerais críticos — essenciais para a indústria tecnológica e militar — e o resultado é um território tratado menos como sociedade e mais como tabuleiro.

Reação local e europeia

A resposta da Groenlândia foi rara em clareza. O primeiro-ministro Jens Frederik Nielssen rejeitou frontalmente qualquer ameaça velada: exigiu o fim das “pressões, insinuações e fantasias de anexação” e reafirmou que o diálogo só pode ocorrer dentro do direito internacional. Em Copenhague, a primeira-ministra Mette Frederiksen classificou a ideia como absurda.

A União Europeia também reagiu, lembrando o óbvio que precisou ser reafirmado: soberania nacional, integridade territorial e inviolabilidade de fronteiras não são conceitos negociáveis. Ainda assim, o simples fato de a Casa Branca tratar a opção militar como hipótese legítima já altera o equilíbrio diplomático no Atlântico Norte.

“Quando uma potência fala em anexação como política externa, o direito internacional vira nota de rodapé.”

Entre estratégia e precedentes perigosos

A fala americana não ocorre no vácuo. Ela dialoga com um padrão recente de linguagem agressiva, normalização da força e desprezo por arranjos multilaterais. Ao colocar a Groenlândia no mesmo vocabulário de “opções militares”, Washington envia um sinal que vai muito além do Ártico: o de que fronteiras podem voltar a ser discutidas como no século passado.

A história mostra que grandes potências raramente reconhecem o custo simbólico de suas palavras. Mas povos e vizinhos aprendem rápido. No gelo do norte, a temperatura diplomática subiu — e não foi por causa do aquecimento global.

JR Vital

JR Vital é jornalista e editor do Diário Carioca. Analista Político, Formado no Rio de Janeiro, pela faculdade de jornalismo Pinheiro Guimarães, atua desde 2007, tendo passado por grandes redações, como Visto Livre Magazine, Folha do Centro, Universo Musical, Alô Rio e outros.

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