OS FATOS:
- Giorgia Meloni defende a retoma do diálogo de alto nível entre a União Europeia e a Rússia para garantir a influência continental no acordo de paz.
- A premiê propõe a criação de um “enviado especial europeu” para unificar as vozes dissonantes de Bruxelas diante da hegemonia diplomática de Washington.
- Meloni rechaça o isolacionismo anti-Trump, classificando a dependência das bases e do comércio estadunidense como uma realidade geopolítica incontornável.
O Despertar da Realpolitik no Eixo Roma-Paris
A declaração de Giorgia Meloni em Roma não é apenas um aceno diplomático, mas um sintoma do pânico institucional que atravessa o Velho Continente. Ao afirmar que “chegou a hora de a Europa conversar com a Rússia”, a líder italiana vocaliza o temor de que o destino da Ucrânia — e, por extensão, da segurança europeia — esteja sendo selado em conversas bilaterais entre Donald Trump e Vladimir Putin, à revelia de Bruxelas. O alinhamento com Emmanuel Macron não é uma coincidência ideológica, mas uma estratégia de sobrevivência: ambos compreendem que a “contribuição limitada” mencionada por Meloni é o eufemismo para a irrelevância geopolítica absoluta da União Europeia no pós-guerra.
A proposta de um enviado especial é o reconhecimento de que a Europa, em sua atual arquitetura de “muitas vozes”, é incapaz de exercer o poder de barganha necessário. Enquanto Washington opera com o pragmatismo de quem vê o conflito como uma interrupção de fluxos comerciais, Meloni tenta desesperadamente transformar a UE em uma entidade política coesa antes que o “Mapa de Paris” seja desenhado sem a caneta italiana ou francesa.
A Estrutura de Poder e Dependência: O Dilema da OTAN
| Vetor de Influência | Dependência Europeia | Posicionamento de Meloni |
| Segurança Militar | Bases dos EUA em solo europeu | “Inviável fechá-las”; Realismo Geopolítico |
| Comércio e Cultura | Relações transatlânticas (Ex: McDonald’s) | Defesa da manutenção dos laços econômicos |
| Negociação com a Rússia | Suspensão total desde 2022 | Necessidade de retomada imediata de alto nível |
| Status de Potência | Membro do G7 | Rejeição à reintegração da Rússia (G8) no curto prazo |
| Fonte: Coletiva de Imprensa de Ano Novo – Roma / Agência ANSA. |
O Fantasma do McDonald’s e a Soberania Tercerizada
A ironia ácida de Meloni ao questionar se os críticos de Trump deveriam “invadir o McDonald’s” ou “fechar bases americanas” revela a fragilidade da autonomia europeia. Intelectualmente, o discurso da premiê expõe o paradoxo da direita europeia contemporânea: um nacionalismo que, para sobreviver ao imperialismo russo, aceita a vassalagem ao hegemon estadunidense. O combate ao retrocesso, neste cenário, ganha contornos complexos. A Europa de Meloni não busca uma soberania autêntica, mas uma “cadeira na mesa” do grande capital e das grandes potências.
A menção à Groenlândia e ao temor de uma ação militar de Trump na região sublinha que o “medo” não é exclusividade de Putin; a própria OTAN observa seu líder com a desconfiança de quem sabe que o aliado de hoje pode ser o corretor de imóveis geopolítico de amanhã. A defesa do diálogo com a Rússia não nasce de uma inclinação pró-Moscou, mas do entendimento de que o “Realismo Cínico” é a única linguagem que Trump e Putin respeitam. O Diário Carioca observa: a Europa está sendo obrigada a escolher entre ser o quintal de Washington ou o vizinho acuado de Moscou.
A nomeação de um enviado especial europeu pode realmente unificar a voz da UE? Historicamente, a União Europeia sofre da “doença de Kissinger” — a falta de um número de telefone único para a diplomacia. Um enviado especial teria autoridade técnica, mas dificilmente superaria as divergências fundamentais entre países do Leste (hostis à Rússia) e o eixo franco-italiano (propenso ao acordo), tornando o cargo mais um símbolo de intenção do que um instrumento de poder real.





