OS FATOS:
- A primeira-ministra italiana Giorgia Meloni afirmou que a União Europeia deve retomar o diálogo de alto nível com a Rússia para ter relevância política nas negociações sobre a guerra da Ucrânia.
- Desde a invasão russa em fevereiro de 2022, os contatos institucionais entre Bruxelas e Moscou estão praticamente suspensos, com os Estados Unidos assumindo protagonismo diplomático.
- Meloni defendeu a nomeação de um enviado especial europeu para a Ucrânia e rejeitou tanto a reintegração imediata da Rússia ao G7 quanto aventuras militares unilaterais no âmbito da OTAN.
A Voz Única Que Não Existe
A intervenção de Giorgia Meloni, envolta na retórica do pragmatismo geopolítico, revela menos uma guinada ideológica do que a constatação tardia de uma falência estrutural: a União Europeia permanece incapaz de agir como sujeito histórico autônomo. Ao defender o diálogo com Moscou, Meloni não rompe com o consenso atlântico, mas evidencia o vazio estratégico deixado por Bruxelas desde 2022, quando terceirizou sua política externa a Washington.
A guerra da Ucrânia cristalizou uma contradição antiga. A Europa, potência econômica, segue sendo um anão geopolítico, para usar a expressão cunhada por Mark Eyskens nos anos 1990. A suspensão quase total dos canais diplomáticos com a Rússia não isolou Moscou; isolou a própria UE do centro decisório do conflito.
Diplomacia Não É Gossip
Ao afirmar que “geopolítica não é fofoca”, Meloni ecoa uma tradição realista que remonta a Maquiavel e passa por Raymond Aron. Estados não operam no registro moral da indignação permanente, mas no terreno concreto dos interesses, correlações de força e consequências sistêmicas. Dialogar com a Rússia, nesse sentido, não equivale a legitimar a invasão da Ucrânia, mas a reconhecer que guerras terminam por negociação, não por exorcismo retórico.
A posição italiana converge com a do presidente francês Emmanuel Macron, que já havia defendido a reabertura de canais com Vladimir Putin. Ambos apontam para um mesmo diagnóstico: falar apenas com Kiev, enquanto Washington dita os termos do jogo, reduz a Europa a figurante de luxo em uma tragédia continental.
O Vácuo Europeu Em Números
| Dimensão | União Europeia | Estados Unidos |
|---|---|---|
| Liderança nas negociações | Fragmentada, sem enviado único | Centralizada na Casa Branca |
| Contato diplomático com Moscou | Virtualmente suspenso desde 2022 | Intermitente e estratégico |
| Capacidade militar projetável | Dependente da OTAN | Autônoma e global |
| Poder de agenda no conflito | Reativo | Proativo |
A ausência de um enviado especial europeu para a Ucrânia — ponto enfatizado por Meloni — simboliza essa desarticulação. Muitas vozes, múltiplos formatos, nenhuma síntese. A diplomacia, sem arquitetura institucional clara, dissolve-se em ruído.
Entre O G7 E O Ártico
Meloni também traçou linhas vermelhas. Considerou “impossível”, no cenário atual, a reintegração da Rússia ao G7, antigo G8 antes da anexação da Crimeia. Ao mesmo tempo, rejeitou especulações sobre o uso de força militar dos Estados Unidos para tomar a Groenlândia, alertando para o impacto devastador que tal gesto teria sobre a OTAN.
Essas declarações desenham uma postura de equilíbrio instável: fidelidade ao eixo atlântico, combinada com a tentativa de resgatar algum grau de soberania política europeia. Não se trata de romper com Washington, mas de evitar que a Europa continue a agir como província estratégica do império.
A ironia final — “Devemos invadir o McDonald’s?” — funciona como crítica à infantilização do debate público. Política internacional não se resolve com boicotes simbólicos ou gestos performáticos, mas com cálculo, poder e linguagem dura.
Por que a proposta de Meloni expõe uma crise estrutural da União Europeia?
Porque revela a incapacidade do bloco de formular e executar uma política externa unificada, deixando decisões estratégicas sobre segurança continental nas mãos dos Estados Unidos e reduzindo sua influência real nas negociações que definirão o futuro da ordem europeia.





