O mundo anda inquieto. Quase um ano após Donald Trump reassumir a Casa Branca, cresce, em escala global, a percepção de que os Estados Unidos deixaram de ser porto seguro e passaram a ser fator de risco. É o que revela a nova pesquisa do Conselho Europeu de Relações Exteriores (ECFR), divulgada nesta quinta-feira.
O levantamento, feito em 21 países, indica uma inflexão histórica: mais cidadãos confiam na China para ampliar sua influência internacional do que nos EUA. A lógica do “América primeiro” perdeu o encanto. E ganhou contornos de ameaça.
Todos os países pesquisados acreditam que a China aumentará seu poder na próxima década. Mesmo no Reino Unido, tradicional aliado de Washington, metade da população vê avanço chinês como inevitável.
Quando o império fala grosso, o mundo escuta baixo
Entre os BRICS, o alinhamento com Pequim é quase um coro. No Brasil, 73% consideram a China aliada ou parceira necessária. Na África do Sul, 85%. Na Rússia, 86%. Apenas Ucrânia e Coreia do Sul destoam, vendo a China majoritariamente como rival.
Do outro lado do Pacífico, o retrato é mais pálido. Em vários países — incluindo os próprios Estados Unidos — apenas um em cada quatro entrevistados acredita que a influência americana crescerá. Na China, Rússia e Ucrânia, muitos já apostam no declínio de Washington.
Não é apenas antipatia ideológica. É cálculo político. O pesquisador Pawel Zerka resume o sentimento: ao romper alianças, hostilizar instituições multilaterais e tratar parceiros como vassalos relutantes, Trump encurta o alcance do próprio país. O poder, quando grita demais, começa a ecoar vazio.
Europa à deriva entre dois continentes de poder
A pesquisa também registra uma fratura silenciosa no Atlântico Norte. Apenas 16% dos europeus hoje veem os EUA como aliados — queda em relação ao fim de 2024. Já 20% os enxergam como rival ou inimigo. Para 23%, a relação com Washington tende a piorar nos próximos cinco anos.
Curiosamente, mais europeus acreditam no enfraquecimento dos laços com os EUA do que com a China. A velha ponte transatlântica range. E não é apenas pelo peso dos anos.
Dados que falam, números que acusam
| País / Grupo | China como aliada/parceira | EUA como potência em ascensão |
|---|---|---|
| Brasil | 73% | Minoria |
| África do Sul | 85% | Minoria |
| Rússia | 86% | Minoria |
| Reino Unido | 50% veem avanço chinês | Ceticismo elevado |
| Europa (média) | Crescente confiança | Apenas 16% veem como aliado |
| Estados Unidos | — | 25% veem declínio |
Os números são frios, mas a leitura é incômoda. A China surge como potência previsível, paciente, estratégica. Os EUA, como força errática, personalista, vulnerável ao humor do governante da vez. O mundo não escolhe por afeto. Escolhe por estabilidade.
Um mundo pós-ocidental bate à porta
O relatório fala em “mundo pós-ocidental”. Não é slogan acadêmico. É diagnóstico. Para muitos entrevistados, os Estados Unidos seguem relevantes, mas agora como potência entre outras — não mais como maestro solitário da orquestra global.
Na Ucrânia, a confiança na União Europeia cresce, enquanto a fé nos EUA mingua, reflexo direto da postura americana diante da guerra. Entre europeus, domina o pessimismo quanto à capacidade do bloco de negociar de igual para igual com Washington ou Pequim.
Trump e Putin aparecem como figuras que, cada um a seu modo, tensionam o sistema internacional com visões agressivas e desdenhosas. O resultado é um planeta mais desconfiado, mais fragmentado e perigosamente acostumado à ideia de que a ordem antiga não volta.





