A geopolítica do espetáculo, sob a batuta de Donald Trump, acaba de produzir seu mais novo e perigoso roteiro. O chamado “Conselho da Paz” (Board of Peace) foi anunciado pela Casa Branca como a solução definitiva para a Faixa de Gaza.
Entretanto, por trás da nomenclatura angelical, esconde-se a estrutura de um governo fantoche. O convite oficial enviado ao presidente Lula é o “beijo da morte” diplomático que busca cooptar o Brasil para validar uma ocupação sem a participação dos palestinos.
Donald Trump, o mestre do branding autoritário, quer transformar Gaza em um condomínio administrativo gerido por seus aliados mais fiéis e alguns convidados para dar um ar de pluralidade. O núcleo fundador já conta com Javier Milei, o porta-voz do anarcocapitalismo de subúrbio, e líderes como Abdel Fattah al-Sisi (Egito) e Erdogan (Turquia).
Lula, que sempre defendeu a autodeterminação dos povos e a solução de dois Estados, vê-se agora diante de uma armadilha retórica. Aceitar o convite significa assinar embaixo de um plano de 20 pontos que ignora a soberania palestina em favor de uma “administração transitória” desenhada em Mar-a-Lago.
Quem são os arquitetos da nova “paz” americana?
Para entender a natureza do convite, é preciso olhar para a lista de convidados e diretores desse conselho. O Board of Peace não é um órgão da ONU, embora tente se escorar na Resolução 2803.
É um conselho presidido por Trump e composto por figuras como Marco Rubio, o falcão do intervencionismo, e Jared Kushner, o genro que trata o Oriente Médio como um empreendimento imobiliário. A presença do ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair, cujas mãos ainda carregam o sangue do Iraque, é a cereja do bolo de um grupo que cheira a imperialismo do século passado.
O tecnocrata escolhido para liderar o Comitê Nacional para a Administração de Gaza (NCAG) é Ali Sha’ath. Ele é apresentado como a face “eficiente” da reconstrução, mas sua autoridade emanará diretamente de Washington, e não das urnas ou do consenso palestino.
Javier Milei já correu para as redes sociais para agradecer ao seu “presidente” Trump. Para o argentino, a paz é apenas uma mercadoria de troca em sua cruzada ideológica. Já o Egito e a Turquia mantêm uma cautela estratégica, sabendo que, sem o envolvimento real das partes em conflito, o Conselho da Paz será apenas um comitê de supervisão de uma prisão a céu aberto.
O mimimi do golpista e a armadilha para o Itamaraty
O convite a Lula é uma jogada de mestre para neutralizar a liderança do Sul Global. Se o Brasil aceitar, o golpista Jair Bolsonaro e seus seguidores perderão o discurso de que Lula é “persona non grata” no cenário internacional de direita.
Contudo, o custo político para o governo brasileiro seria astronômico. Como defender os Direitos Humanos em Gaza integrando um conselho que exclui os próprios palestinos da mesa de negociações?
Trump não busca a paz; ele busca a pacificação pela força e pelo capital. O plano inclui nomes como Marc Rowan e Ajay Banga, sinalizando que a reconstrução de Gaza será, antes de tudo, um grande balcão de negócios para o sistema financeiro internacional.
O histórico de Trump em Gaza é marcado pelo apoio irrestrito à expansão de assentamentos e pela desumanização do povo palestino. Agora, ele utiliza o “Conselho da Paz” para vestir uma pele de cordeiro sobre o lobo do expansionismo.
É a diplomacia do fato consumado. Trump cria o problema, agrava a crise e depois se oferece para gerir a solução através de governos fantoches. Para Milei, é uma honra; para Lula, é um teste de fogo para a tradição humanista da diplomacia brasileira.
Abaixo, os nomes que pretendem decidir o futuro de um povo sem ouvi-lo.
| Integrante do Conselho | Perfil Ideológico | Função no “Board of Peace” | Conexão com o Passado |
| Donald Trump | Populista de Extrema-Direita | Presidente e Mentor | Mentor do “Acordo do Século” excludente. |
| Javier Milei | Ultra-Liberal / Teocrata | Membro Fundador | Admirador confesso do intervencionismo. |
| Tony Blair | Corrupção e Intervencionismo | Conselheiro Sênior | Arquiteto da desastrosa invasão do Iraque. |
| Jared Kushner | Negócios e Imobiliária | Estrategista | Tratou Gaza como “propriedade de valor”. |
| Marco Rubio | Falcão Anti-Esquerda | Segurança e Supervisão | Defensor de sanções e ocupações rígidas. |
Os Contrastes Republicanos
- Inclusão vs. Exclusão: O plano fala em “prosperidade para Gaza”, mas não inclui um único representante legítimo palestino no núcleo fundador.
- Soberania vs. Tutela: Trump propõe uma “administração transitória”, o que na prática significa uma intervenção militar-administrativa prolongada.
- Paz vs. Lucro: A presença de Marc Rowan e nomes do Banco Mundial indica que Gaza será o laboratório de uma “reconstrução” privatizada.
O “Conselho da Paz” é a tentativa final de Trump de apagar a questão palestina através da burocracia internacional. O Brasil deve decidir se quer ser o verniz democrático de uma ocupação ou se manterá sua posição histórica ao lado da justiça e da soberania real.
O convite é um elogio perigoso. O Diário Carioca continuará denunciando a tentativa de vender o colonialismo com embalagem de ajuda humanitária. A paz sem o povo é apenas a calmaria dos cemitérios.
Citados: Donald Trump; Lula; Gaza; Conselho da Paz; Javier Milei; Tony Blair; Jared Kushner; Oriente Médio; Itamaraty; Palestina; Resolução 2803.





