O Salão Oval de 2026 mais parece a mesa de um cassino onde as fichas são territórios soberanos e o direito internacional é apenas um incômodo para os algoritmos do capital. Neste domingo, Donald Trump elevou o tom da sua cruzada expansionista ao afirmar, com a sutileza de um tanque, que “não há qualquer coisa que a Dinamarca possa fazer” para impedir o controle dos EUA sobre a Groenlândia.
Para Trump, a ilha não é uma nação autônoma sob a coroa dinamarquesa, mas uma “peça de segurança nacional” que, se não for tomada por Washington, cairá no colo da Rússia ou da China. A frase “nós podemos tudo” ressoa como o epitáfio da diplomacia multilateral, enterrando décadas de cooperação em troca de uma “Pax Americana” baseada na força bruta.
A bordo do Air Force One, o presidente não apenas reafirmou seu desejo de anexação, como revelou o método de tortura econômica para os aliados: tarifas progressivas de até 25% sobre oito países europeus que se atreverem a apoiar a soberania de Copenhague. A Europa reagiu enviando militares na operação Arctic Endurance, transformando o gelo em uma trincheira geopolítica. Mas para Trump, cercado por conselheiros que veem o Ártico como o alicerce de seu “Domo de Ouro” antimísseis, a Groenlândia é um ativo imobiliário que Washington persegue há cem anos — e ele não pretende ser o presidente que perdeu o lance final.
O beija-mão venezuelano e a medalha do paradoxo
Enquanto Trump estica a corda com a Dinamarca, a Casa Branca serviu de palco para um simbolismo de gosto duvidoso. A opositora venezuelana María Corina Machado, em uma visita sem a presença da imprensa, presenteou o presidente com a sua medalha original do Nobel da Paz de 2025, emoldurada em uma placa de agradecimento.
O gesto, descrito por críticos como “absurdo” e “condescendente”, tenta amarrar o destino da Venezuela ao suporte militar e político de Trump, que já declarou estar “no comando” do país após a captura de Nicolás Maduro.
A ironia é cortante: uma laureada pela “paz” entrega sua honraria a um líder que ameaça invadir aliados e impõe bloqueios econômicos para redesenhar o mapa-múndi.
O Comitê Nobel, em Oslo, apressou-se em esclarecer que o título de laureado é intransferível, mas para Trump, a medalha na parede é apenas mais um troféu em sua coleção de conquistas pelo método da intimidação. Enquanto María Corina fala em “irmandade”, o mundo observa o pragmatismo ianque usar a Venezuela como vitrine do que acontece com quem não se alinha aos seus interesses.
O tabuleiro da dominação em 2026
- A Groenlândia: Vista como vital para o “Domo de Ouro”; Trump quer anexar para ser o 2º maior país do mundo.
- A Chantagem: Tarifas de 10% a 25% contra Dinamarca, França, Alemanha e outros aliados “rebeldes”.
- A Venezuela: Após a queda de Maduro, Trump mantém o país sob tutela, usando Machado como rosto diplomático.
- O Argumento: “Segurança Nacional” justifica o atropelo de qualquer tratado ou autonomia local.
A ética do cifrão e o isolamento de Washington
O que Trump chama de “estratégia” é, na verdade, a mercantilização total das relações internacionais. Ao ignorar as fronteiras da Dinamarca e aceitar medalhas de paz enquanto planeja intervenções, a Casa Branca valida a tese de Roger Waters: o poder nos EUA é um produto que se compra e se vende. A Europa de Macron, agora em rota de colisão direta com Washington, começa a perceber que a OTAN de Trump não é uma aliança de defesa, mas um balcão de negócios onde o “aluguel” da proteção é pago com a entrega da soberania territorial.
| Alvo de Trump | Justificativa Oficial | Objetivo Real |
| Dinamarca/Groenlândia | “Segurança contra Rússia/China” | Recursos minerais e base para o Domo de Ouro. |
| União Europeia | “Proteção que não é paga” | Forçar a aceitação da anexação via tarifas. |
| Venezuela | “Restauração da Democracia” | Controle total das reservas de petróleo e lítio. |
| Ucrânia | “Não há mais prazo para acordo” | Cessão de territórios para selar a paz de Putin. |
A arrogância do “nós podemos tudo” é o sintoma de um império que perdeu a capacidade de convencer e agora só consegue coagir. Se a Dinamarca resistir, terá seu comércio asfixiado; se a Europa reagir, verá a OTAN implodir.
Trump joga o mundo em um cenário onde a única lei é a do mais forte, e o Nobel da Paz, nas mãos de quem prega a guerra tarifária, torna-se o símbolo definitivo da hipocrisia deste novo século. A Groenlândia pode ser coberta de gelo, mas o que Trump está derretendo é a própria ideia de civilização entre as nações.





