No tabuleiro de xadrez do Palácio do Planalto, Eduardo Paes (PSD) acaba de mover seu rei para uma posição defensiva que beira a rendição. Após passar meses tentando equilibrar-se entre o “faz o L” e o “fala, Malafaia”, o prefeito do Rio de Janeiro percebeu que a corda esticou demais. Na última terça-feira, em uma conversa a sós com o presidente Lula — fora da agenda oficial, onde as verdades costumam ser ditas sem eufemismos —, Paes não apenas confirmou que renuncia em 20 de março para disputar o Palácio Guanabara, como entregou a cabeça de seus planos ambiciosos em uma bandeja de prata: jurou lealdade absoluta e aceitou a deputada Benedita da Silva como sua candidata ao Senado. O recuo é drástico para quem, até ontem, imaginava uma chapa “puro-sangue” disfarçada de coalizão.
A pressa de Paes tem nome e sobrenome: André Ceciliano e Rodrigo Bacellar. O temor de que Ceciliano, ex-presidente da Alerj, assuma o governo em um mandato-tampão após a renúncia de Cláudio Castro (PL) transformou o sono do prefeito em pesadelo. Com o apoio de Bacellar — o presidente da Alerj que, mesmo afastado, ainda mexe os cordelinhos da política fluminense para se vingar de seus desafetos —, Ceciliano poderia sentar na cadeira de governador meses antes da eleição, controlando a máquina estatal e implodindo os planos de Paes.
Para evitar que o PT fluminense siga o caminho próprio com a ajuda da direita insatisfeita, Dudu teve que ir a Brasília “limpar a barra” após episódios de infidelidade, como o apoio público a Silas Malafaia e a defesa da operação policial que dizimou dezenas no Alemão.
A lealdade de Eduardo Paes resistirá ao primeiro aceno de Kassab em direção a Tarcísio de Freitas ou ao crescimento de Flávio Bolsonaro nas pesquisas?
Será que Lula, escolado nas traições históricas do MDB e do PSD fluminenses, acredita mesmo nas juras de um político que já foi “Aezão” enquanto fingia ser Dilma? O Planalto recebeu o gesto com o cinismo de quem conhece o personagem: “calçou as sandálias da humildade”, dizem os petistas, mas a desconfiança permanece intacta.
Paes morre de medo de ser visto como “esquerdista demais” na Baixada Fluminense e em São Gonçalo, redutos onde o bolsonarismo ainda é religião. O jogo de Paes é de sobrevivência, tentando manter o apoio de Lula sem perder os votos de quem ainda veste verde e amarelo.
O Tabuleiro Carioca: Entre a Fé e a Traição
| Personagem | Movimento na Semana | Motivação Real | O Olhar do Diário |
| Eduardo Paes | Jurou lealdade e apoiou Benedita. | Medo de Ceciliano virar governador-tampão. | O pragmatismo venceu a marra, por enquanto. |
| André Ceciliano | Articula candidatura indireta na Alerj. | Assumir a máquina estadual com apoio de Bacellar. | A ameaça petista que forçou Paes ao recuo. |
| Rodrigo Bacellar | Apoia Ceciliano contra os aliados de Castro. | Vingança política e manutenção de poder na Alerj. | O “inimigo do meu inimigo” é meu governador. |
| Douglas Ruas | Nome preferido de Flávio Bolsonaro. | Ser o palanque do clã Bolsonaro no Rio. | A sombra da direita que assombra o sono de Dudu. |
A análise técnica do Diário Carioca é impiedosa: Paes é um mestre da sobrevivência, mas desta vez teve que entregar os dedos para não perder os braços. A aliança com o PT no Rio é um casamento de conveniência onde nenhum dos cônjuges dorme sem um olho aberto.
Se Tarcísio de Freitas se consolidar como o nome da direita nacional com as bênçãos de Gilberto Kassab, a “lealdade” de Paes a Lula será testada na temperatura máxima.
Por ora, o prefeito garantiu a permanência no jogo, mas a história do “Aezão” em 2014 ecoa nos corredores do Planalto como um lembrete: no Rio de Janeiro, a traição é uma instituição tão sólida quanto o Cristo Redentor.





