A política externa brasileira, hoje regida por uma erudição que substituiu o amadorismo ideológico do passado, enfrenta mais um teste de nervos no tabuleiro do Oriente Médio. Donald Trump, no auge de seu estilo “showman” internacional, formalizou o convite para que Luiz Inácio Lula da Silva integre o recém-criado Conselho da Paz para a Faixa de Gaza.
No entanto, o que para Javier Milei foi motivo de celebração imediata e gratidão messiânica, para o Palácio do Planalto é matéria de uma análise gélida e calculada. Lula não tem pressa. Auxiliares próximos confirmam que a resposta será pautada pela cautela, evitando que o Brasil se torne um mero figurante em um projeto de reconstrução que, para muitos diplomatas, possui mais interesse imobiliário e geopolítico do que humanitário.
O Conselho da Paz de Trump nasce sob a sombra da controvérsia. Embora se apresente como o órgão que supervisionará a transição política e a governança pós-cessar-fogo, a ausência de representantes palestinos no núcleo decisório é um vácuo que grita aos olhos da tradição diplomática brasileira.
O Brasil, historicamente defensor da solução de dois estados e do direito internacional, vê com desconfiança uma iniciativa que parece mais um “protetorado” americano do que um esforço multilateral genuíno. Além disso, a presença de figuras como o secretário de Estado Marco Rubio e o ex-primeiro-ministro Tony Blair — este último ainda carregando o estigma da invasão do Iraque — levanta dúvidas sobre a legitimidade moral do grupo.
O pragmatismo de Lula vs. a euforia de Milei
A pressa de Javier Milei em aceitar o convite — declarando ser uma “honra” estar ao lado dos que lutam contra o terrorismo — apenas ressalta o isolamento diplomático de quem prefere o alinhamento cego à soberania estratégica.
Lula, por outro lado, entende que integrar um conselho presidido por Trump exige garantias de que o Brasil não será usado para validar uma agenda de ocupação disfarçada de paz. O presidente brasileiro, que já criticou duramente o massacre em Gaza, sabe que qualquer passo em falso pode comprometer décadas de neutralidade ativa e respeito junto ao mundo árabe.
| Líder Convidado | Reação ao Convite | Alinhamento Ideológico |
| Javier Milei (Argentina) | Aceitou imediatamente. | Alinhamento total e submisso ao trumpismo. |
| Santiago Peña (Paraguai) | Aceitou “com orgulho”. | Pragmatismo regional focado em Washington. |
| Luiz Inácio Lula da Silva | Cautela e análise na próxima semana. | Multilateralismo soberano e defesa da Palestina. |
| Recep Tayyip Erdogan (Turquia) | Silêncio estratégico até o momento. | Defensor dos interesses muçulmanos na região. |
| Abdel Fattah al-Sisi (Egito) | Sem manifestação oficial imediata. | Papel de mediador direto na fronteira de Rafah. |
A desconfiança no Itamaraty não é gratuita. O plano de Trump prevê a desmilitarização completa do Hamas e uma governança tecnocrata, mas falha em estabelecer um cronograma claro para a retirada total das tropas israelenses. Para o Brasil, aceitar o convite sem essas garantias seria o equivalente a assinar um cheque em branco para uma “paz dos cemitérios”. Lula prefere o silêncio estratégico, lembrando que a legitimidade de um processo de paz não se mede pela quantidade de líderes aplaudindo em Washington, mas pela velocidade com que a ajuda humanitária chega aos escombros e a dignidade retorna ao povo palestino.
O tabuleiro de 2026 e os riscos da adesão
- Legitimidade vs. Protagonismo: O Brasil quer ser mediador, não coadjuvante de um plano que exclui o povo que pretende governar.
- Histórico vs. Oportunismo: A posição brasileira é a de 1947 e da ONU; a de Trump parece ser a da conveniência eleitoral e geopolítica de curto prazo.
- Riscos Sensíveis: Uma adesão precipitada pode isolar o Brasil em fóruns como o BRICS+, onde a questão palestina é central.
A composição do Conselho, que inclui nomes como Jared Kushner e bilionários americanos, reforça a tese de que o plano pode ser, na verdade, uma grande operação de “real estate” no Mediterrâneo, como alguns analistas ironizam. Lula, que já demonstrou ser o “gigante ausente” capaz de pautar discussões globais sem estar na sala, utilizará a próxima semana para consultar aliados e medir o pulso da ONU. Onde Trump vê um “conselho lendário”, Lula vê um campo minado onde a ética e a soberania nacional são os únicos equipamentos de proteção individual válidos.
O Diário Carioca compreende que a cautela de Lula é a única resposta digna de um estadista. Diferente do golpista Jair Bolsonaro, que se prestava ao papel de papagaio de pirata em eventos internacionais, Lula recuperou a capacidade brasileira de dizer “não” ou “vamos analisar”. O destino de Gaza é sério demais para ser tratado como um reality show diplomático. O convite de Trump é um gesto de reconhecimento à importância do Brasil, mas a aceitação dependerá de a paz proposta ser, de fato, a paz dos vivos e dos livres, e não o silêncio imposto por tarifas e canhões.





