A diplomacia das canetadas em Washington provou ser mais letal que muitos bombardeios. Neste domingo, enquanto Donald Trump reafirma que “nós podemos tudo” e mira a Groenlândia, o rastro de destruição econômica na Venezuela oferece o retrato fiel do que significa ser uma “ameaça extraordinária” aos interesses do império.
O cerco econômico, iniciado por Obama e radicalizado por Trump, não é apenas um conjunto de medidas burocráticas; é uma arma de destruição em massa do tecido social.
Ao asfixiar a indústria petroleira — responsável por 95% das receitas do país — e congelar US$ 1,2 bilhão em ouro no Banco da Inglaterra, os EUA e seus satélites europeus aplicaram um torniquete que consumiu 75% do PIB venezuelano em menos de uma década.
Como bem destaca a economista Juliane Furno, o objetivo é cristalino: gerar o caos para colher o poder. Ao impedir o refinanciamento da dívida e bloquear canais bancários, Washington empurrou a Venezuela da inflação alta para o abismo da hiperinflação em 2017.
O cinismo atinge o ápice quando se observa que a crise migratória de 7,5 milhões de pessoas — usada por Trump para justificar a construção de muros e o uso da Lei da Insurreição em Minnesota — é alimentada diretamente pela miséria que as próprias sanções americanas fabricaram.
É a política do incêndio seguido pela oferta de venda do extintor, desde que o comprador entregue as chaves de casa.

O confisco da Citgo e a pirataria moderna
O ápice do desrespeito ao direito internacional ocorreu no final de 2025, com a liquidação da Citgo pela justiça dos EUA.
O que Caracas classifica como “roubo” é, tecnicamente, um ato de pirataria estatal: o patrimônio de uma nação soberana foi retalhado para satisfazer credores internacionais, enquanto os dividendos que deveriam financiar hospitais e escolas na Venezuela foram desviados para sustentar fantoches políticos.
Enquanto María Corina Machado entrega medalhas de ouro a Trump em Washington, o povo venezuelano vê o seu ouro real ser sequestrado por quem professa a “defesa da democracia”.

A anatomia do bloqueio a Venezuela e seus efeitos
- Pilhagem de Ativos: Confisco de 31 toneladas de ouro em Londres e liquidação da Citgo nos EUA.
- Asfixia Energética: Queda drástica na produção de petróleo devido à proibição de importação de insumos e peças.
- Isolamento Bancário: Bloqueio do sistema SWIFT e suspeição de qualquer transação financeira vinculada ao país.
- Consequência Humana: Hiperinflação, desabastecimento de remédios e êxodo de 20% da população.
A resistência dos números e a falácia da “ameaça”
A prova de que a crise é induzida por fatores externos reside na recuperação observada entre 2022 e 2025. Bastou um leve relaxamento das sanções para que o PIB venezuelano voltasse a crescer 8,5% (2024) e 6,5% (2025), segundo a Cepal. Contudo, a volta de Trump ao poder e a retomada da “pressão máxima” prometem um novo ciclo de agonia.

O argumento de que a Venezuela representa uma “ameaça incomum” à segurança dos EUA — uma nação com o maior orçamento militar da história — seria cômico se não fosse trágico. A única ameaça que a Venezuela representa é a de possuir as maiores reservas de petróleo do mundo e não permitir que elas sejam geridas por conselhos de administração em Houston.
| Período | Ação dos EUA / Evento | Impacto na Economia Venezuelana |
| 2014 | Queda do petróleo (-70%) | Início da recessão e desabastecimento. |
| 2017 | Sanções de “Pressão Máxima” | Consolidação da hiperinflação em dezembro. |
| 2019-2020 | Bloqueio total e confisco de ativos | Perda de US$ 11 bilhões em receitas anuais. |
| 2024-2025 | Relaxamento parcial (Biden) | Recuperação do PIB (8,5% e 6,5%). |
O roteiro que Trump agora tenta aplicar à Europa e à Dinamarca foi testado e refinado em Caracas. O uso do dólar como arma de guerra e o desrespeito à soberania territorial são as marcas de um império que, ao perder a hegemonia produtiva, recorre ao sequestro de bens alheios.
Se o economista Francisco Rodríguez alerta que a volta das sanções expulsará mais 1 milhão de pessoas do país, Trump vê nisso não um drama humano, mas uma oportunidade política para militarizar fronteiras.
Na mesa de poker de Washington, a Venezuela é o prêmio que eles tentam ganhar no grito, enquanto o mundo assiste ao derretimento de uma nação em nome de uma liberdade que só existe nos discursos da Casa Branca.
Com informações da Agência Brasil





