Lula entra em 2026 com um dado que chama atenção até dos adversários: sua aprovação supera a registrada no mesmo ponto do calendário eleitoral de 2006, ano em que venceu a reeleição após atravessar o inferno político do mensalão. O número, por si só, é expressivo. O contexto, porém, é outro — e muito mais hostil.
Há vinte anos, o presidente navegava um país em crescimento acelerado, com otimismo econômico e um sistema de informação ainda mediado por jornais, telejornais e lideranças partidárias. Hoje, governa em meio a uma sociedade fragmentada, hiperinformada e permanentemente tensionada por redes sociais que transformam qualquer gesto em batalha cultural.
A história oferece um espelho útil. Em 2006, Lula foi como Ulisses retornando a Ítaca: ferido, desacreditado, mas estrategista o suficiente para sobreviver à tempestade e retomar o comando. Em 2026, o cenário lembra mais um romance tardio de José Saramago, no qual o poder resiste não pela força épica, mas pela capacidade de interpretar um mundo que já não obedece às velhas regras.
“A popularidade voltou, mas o país que a sustenta já não é o mesmo — e talvez nunca mais seja.”
O respiro econômico que devolveu fôlego político
Depois de enfrentar em 2025 o ponto mais baixo de aprovação de seus governos, Lula se beneficiou de um fator clássico e decisivo: o preço da comida. A desaceleração da inflação dos alimentos — impulsionada por safra recorde e política monetária restritiva — teve efeito imediato no humor do eleitorado de baixa renda. O custo de vida, sempre termômetro político, deixou de sangrar diariamente o governo.
Um crescimento menos generoso que o do passado
Se os indicadores começam o ano em zona positiva — inflação sob controle, desemprego administrável — o pano de fundo é menos promissor do que em 2006. A economia não embala como antes. Juros altos freiam investimentos e reduzem o espaço para políticas expansivas. O lulismo resiste, mas já não conta com o vento a favor que marcou sua era dourada.
Nacionalismo involuntário e uma oposição à deriva
No campo político, Lula colhe dividendos inesperados. O tarifaço imposto por Donald Trump às exportações brasileiras e o ativismo internacional de Eduardo Bolsonaro em favor de sanções contra o próprio país ofereceram ao Planalto um discurso nacionalista pronto. A oposição, além de fragmentada, carrega o peso simbólico de Jair Bolsonaro preso por envolvimento na trama golpista, sem liderança clara nem projeto eleitoral coeso.
Segurança pública: o calcanhar de Aquiles
O maior desafio não vem da economia, mas das ruas. A violência tornou-se o principal problema nacional para uma parcela significativa do eleitorado. Jovens e mulheres, especialmente, colocam a segurança no centro de suas preocupações. O governo patinou em 2025 ao não conseguir aprovar propostas estruturantes na área, enquanto operações policiais de forte apelo popular expõem a distância entre a narrativa oficial e o sentimento majoritário da população.





