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ENTRE O ALTAR E A TOGA

O bispo do camaleão: Robson Rodovalho, o confessor autorizado do golpista Bolsonaro, já orou para o PT

Por Vanessa Neves Analista Política

A política brasiliense, em sua essência mais fisiológica, sempre encontrou no altar um refúgio seguro para a conveniência.

O bispo Robson Lemos Rodovalho, fundador da Sara Nossa Terra, acaba de receber o salvo-conduto do ministro Alexandre de Moraes para cruzar os portões da Penitenciária da Papudinha.

A missão é pastoral: visitar o golpista Jair Bolsonaro. No entanto, o histórico de Rodovalho revela que suas orações costumam seguir a direção dos ventos que sopram da Esplanada dos Ministérios, independentemente da coloração ideológica que neles reside.

Para os desavisados, Rodovalho pode parecer um bastião do conservadorismo bolsonarista, mas a memória política não é tão curta quanto o sermão de um domingo chuvoso.

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Em 2010, o bispo não hesitou em estender o tapete vermelho para Dilma Rousseff, garantindo à então candidata o apoio de seu rebanho sob a promessa de compromissos com pautas confessionais.

Onde havia poder, lá estava o cajado de Rodovalho, adaptando-se com a elasticidade de quem entende que o Reino dos Céus pode esperar, mas o acesso ao Executivo é urgente.

O caráter moldável da fé política

A trajetória de Robson Rodovalho é uma aula de sobrevivência institucional. Ele transita entre o PT e o bolsonarismo com a naturalidade de quem troca de terno para um culto de domingo.

Em 2025, enquanto o bolsonarismo já se preparava para o abismo, Rodovalho ainda mantinha pontes com o governo federal. Ele chegou a defender publicamente a indicação de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal (STF), classificando-o como um “homem de caráter”.

Essa ambiguidade não é um defeito de fabricação, mas uma estratégia de poder. Ao apoiar Messias e, meses depois, consolidar-se como o confessor oficial do golpista preso, Rodovalho atua como o diplomata de uma teocracia invisível. Ele não serve a Deus ou ao povo, mas à influência que o cargo de “bispo de confiança” lhe proporciona em todas as instâncias do poder.

A visita a Bolsonaro, autorizada por Moraes, é o ápice desse pragmatismo: ele entra na cela como pastor, mas carrega consigo o currículo de quem sabe dialogar com o algoz e com a vítima do momento.

A ironia do perdão e a conveniência do cárcere

Não há como ignorar a ironia de que o golpista Jair Bolsonaro, que passou anos demonizando tudo o que cheirasse ao PT, agora encontre conforto espiritual nos braços de um homem que já legitimou a “esquerda” que ele jurou destruir.

O “mimimi” do golpista sobre perseguição política ganha agora uma trilha sonora gospel, mas o regente da orquestra é alguém que já aplaudiu o palanque adversário. Rodovalho é o personagem perfeito para este ato final da tragicomédia brasileira: o bispo que caminha sobre as águas da política sem se molhar em nenhuma das margens.

A autorização dada por Alexandre de Moraes é, em si, um movimento de xadrez. Ao permitir a visita, o STF remove o argumento de isolamento desumano, mas coloca Bolsonaro diante de um interlocutor que o sistema conhece bem.

Rodovalho não é um radical; é um negociador. Ele representa o setor evangélico que prefere a mesa do banquete ao deserto da oposição ideológica. Enquanto Bolsonaro reza, Rodovalho certamente calcula o valor de mercado de seu novo papel como mediador entre a cela e a liberdade.

Período PolíticoAlinhamento de RodovalhoPauta DefendidaInteresse Institucional
Era PT (2010)Apoio a Dilma RousseffCompromissos com a IgrejaAcesso direto ao Palácio do Planalto.
Governo Lula 3 (2025)Respaldo a Jorge MessiasIndicação ao STFManutenção de diálogo com o Judiciário.
Pós-Golpe (2026)Visita a Jair BolsonaroAssistência EspiritualLiderança do espólio conservador religioso.
Perfil GeralCamaleão EvangélicoPragmatismo TeológicoSobrevivência em qualquer governo.

Lista de Contrastes Republicanos

  • Fé vs. Fisiologismo: O bispo usa o Altar para validar Dilma ontem e Bolsonaro hoje, provando que a Bíblia de Brasília tem páginas removíveis.
  • Moraes vs. Bolsonaro: O ministro autoriza a visita para desarmar narrativas de tortura, enquanto o golpista usa a visita para manter a militância acesa.
  • Ética vs. Caráter: A defesa de Jorge Messias por Rodovalho mostra que, para ele, o “caráter” de uma autoridade é medido pela proximidade que ela permite ao bispo.

O Diário Carioca não se ilude com o barulho das correntes ou com o silêncio das preces. A visita de Rodovalho a Bolsonaro é o encontro de dois pragmáticos que perderam o rumo, mas não perderam a sede de relevância.

Onde o golpista vê um confessor, o Brasil vê um lobista da fé. A história, impiedosa, registrará que o homem que tentou derrubar a democracia buscou a absolvição nas mãos de quem sempre soube se curvar a ela por conveniência.


São citados na notícia: Jair Bolsonaro; Robson Rodovalho; Alexandre de Moraes; STF; Papudinha; Sara Nossa Terra; Jorge Messias; Dilma Rousseff

Vanessa Neves

Vanessa Neves é Jornalista, editora e analista de mídias sociais do Diário Carioca. Criadora de conteúdo, editora de imagens e editora de política.

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