O Partido dos Trabalhadores decidiu puxar o fio invisível que liga o poder ao verniz da espontaneidade digital. No sábado, levou à Procuradoria-Geral da República um conjunto de indícios que, reunidos, formam um retrato conhecido das democracias cansadas: governos que terceirizam o aplauso e o vendem como acaso.
O personagem central é Tarcísio de Freitas, engenheiro de formação, ex-ministro de Jair Bolsonaro, o golpista, e atual governador de São Paulo, apresentado ao público como gestor técnico enquanto aprende a gramática do marketing político.
A denúncia nasce de uma reportagem da revista piauí, publicação que prefere bisturi a megafone. Ali se descreve um circuito financeiro em que agências de comunicação remuneram influenciadores para elogiar políticas públicas em páginas dedicadas ao riso fácil, à fofoca e ao escândalo doméstico. A pedagogia cívica cede lugar à piada patrocinada, e o Estado aparece de bermuda, sorrindo para a câmera como se tivesse sido convidado por acaso.
Tarcísio não é um neófito. Formado pelo Instituto Militar de Engenharia, com passagem pela burocracia federal e pela Esplanada dos Ministérios no governo Bolsonaro, construiu sua imagem como administrador austero. Em São Paulo, governa o maior orçamento do país, controla obras bilionárias e se move como presidenciável em aquecimento. Nada disso combina com o tom despojado de perfis que vivem de memes, o que torna o enredo mais interessante que a negação oficial.
Quando a política veste fantasia?
Os conteúdos celebravam inaugurações do Rodoanel Norte, reduções de IPVA para motociclistas, embates retóricos com a Enel e campanhas contra o feminicídio. Temas sérios, caros à administração pública, subitamente embalados como entretenimento leve. O contraste é didático: páginas acostumadas a celebridades relâmpago passaram a falar de infraestrutura viária e política tarifária com entusiasmo juvenil.
Espontaneidade custa caro quando precisa ser combinada. O PT sustenta que não houve epifania editorial, mas financiamento ainda nebuloso. O calendário ajuda a entender a pressa: 2026 ronda os gabinetes, e o abuso de poder econômico não costuma se anunciar com fanfarra, mas com contratos discretos.
Política pública como dever constitucional
Publicidade disfarçada como estratégia eleitoral
Transparência administrativa como princípio
Opacidade financeira como método
Cidadão como destinatário
Seguidor como alvo
Quem paga pelo aplauso?
A notícia de fato pede mais que curiosidade jurídica. Quer nomes, fluxos de recursos, responsabilidades. Improbidade administrativa não é figura abstrata; é a erosão cotidiana da confiança. O partido solicita que a PGR identifique os responsáveis e desestimule a repetição do expediente, antes que o processo eleitoral seja convertido em concurso de popularidade terceirizada.
O governo paulista respondeu com negativa categórica. Afirma não ter contratado influenciadores nem perfis de fofoca, jura fidelidade às campanhas institucionais e invoca os princípios constitucionais como quem recita um credo. Legalidade, impessoalidade e publicidade surgem na nota como escudos retóricos, embora não expliquem por que a narrativa governamental encontrou abrigo tão confortável em ambientes alheios ao debate público.
Governador
Obra pública
Linguagem utilizada
Ambiente de divulgação
Interesse declarado
Risco institucional
Tarcísio de Freitas
Rodoanel Norte
Tom informal
Perfis de fofoca
Gestão administrativa
Desequilíbrio eleitoral
A cena não é inédita. Governos aprenderam que o eleitor cansado prefere ser entretido a ser convencido. A novidade está na ousadia: transformar páginas de banalidades em vitrines de políticas públicas, apostando que a informalidade dissolve a responsabilidade. O PT, ao provocar a PGR, recoloca a pergunta essencial: quem vigia a fronteira entre comunicação institucional e propaganda antecipada?
No fundo, trata-se menos de Tarcísio e mais do método. O golpista Jair Bolsonaro ensinou que a política pode sobreviver à verdade se dominar o fluxo da atenção. Seus herdeiros testam versões mais polidas do mesmo experimento. A democracia, por sua vez, depende de algo menos glamouroso: regras cumpridas sem filtros de Instagram.
Se a apuração avançar, o país talvez descubra que o riso patrocinado também vota. Se não, restará a lição amarga de que a fofoca, quando financiada pelo poder, deixa de ser inofensiva e passa a governar.





